Letters from a traveller | #5

Conhecimento - Kwasawá
Setembro 19, 2019

Com isso em mente e com a percepção de que o trançado de palha da comunidade de Urucureá traz consigo uma ancestralidade indígena velada, esquecida talvez, entre demarcações de terras e preconceitos, resolvi fazer uma homenagem, resgatando e fortalecendo a importância desta ancestralidade no coração de cada uma das artesãs e no meu também.

Viajei no tempo, para o período da colonização brasileira, quando os jesuítas chegaram aqui e para conseguirem se comunicar com as diversas etnias indígenas que encontraram, resolveram criar um idioma, o nheengatu. Nheengatu em tupi significa “língua boa”. Ela foi a língua mais comum no Brasil durante os primeiros séculos da nossa existência e, acreditem, é bem provável que venha dela nosso sotaque com pronúncia forte de vogais e sons anasalados, tão diferente do português de Portugal.

Viajei através de pesquisas que me levaram a identificar o trabalho artesanal mais característico da etnia Borari, a cerâmica. Os borari antes numerosos, hoje estão dispersos pela região de Alter do Chão e seu artesanato é praticamente inexistente, mas com a ajuda de amigos como a Lalah e o Nei, consegui encontrar sete peças. Algumas feitas pela D. Agostinha, uma senhora delicada que trabalha a cerâmica de forma bem tradicional, outras feitas pela Vândria, com a força da nova geração, e outras tantas de autoria desconhecida, testemunhas de um tempo que não deve passar.

Carregando as cerâmicas embarquei mais uma vez para Urucureá, desta vez viajei de barco mesmo e mantive meus pés no chão ao adentrar a comunidade propondo às artesãs fazermos uma releitura das cerâmicas através da palha. Eu queria que elas viajassem e, cada uma a sua maneira, encontrassem seus ancestrais e seus valores, desafiassem a si mesmas, abrissem espaço para que a luz entrasse e iluminasse partes importantes de suas histórias.

O resultado dessas viagens, minhas e delas, vocês podem conferir a partir do dia 01 de outubro na exposição Duas Crônicas, no A Casa – Museu do Objeto Brasileiro, em São Paulo. Lá apresentarei os pandans da série KWASAWA, palavra nheengatu que significa conhecimento.

A cerâmica e a palha, o nheengatu e o português, o artesanato e a arte, elas e eu, todos elos de uma mesma história. Uma história que se desfaz e se refaz, que moldamos e trançamos através do tempo.

 

http://linguasbrasilicas.blogspot.com/2016/05/traducao-do-novo-testamento.html

https://pt.babbel.com/pt/magazine/nheengatu-a-lingua-nao-tao-perdida-comum-dos-indios-dos-escravos-e-dos-jesuitas/

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Yankatu - Design + Art with Brazilian soul

Maria Fernanda Paes de Barros Penteado

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